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segunda-feira, 26 de setembro de 2016

O Fogo e as Cinzas (Manuel da Fonseca)




Certa manhã, meu pai ordenou-me inesperadamente:
- Diz a tua mãe que te vista o fato novo para ires tirar o retrato.
Admirei-me:
- Mas hoje não é dia dos meus anos...
- Pois não. Mas lá em Beja precisam de dois retratos teus. É para te identificarem.
- Identificarem?
- Sim. Para saberem que és tu e não outro.
- Não percebo - recomecei, desconfiado.
- Como podem eles supor que vai outro em meu lugar?
Daqui por diante, a conversa complicou-se de tal modo que meu pai perdeu a serenidade; gritou-me:
- Faz o que te digo, rapaz!
Fiz. Nada mais havia a replicar quando meu pai me chamava rapaz. Era uma regra que, à custa de alguns sopapos, eu acabara por introduzir nas nossas relações. Respeitando a regra, foi, pois, a minha mãe, que me vestiu de ponto em branco.
Daí a pouco, com grande escândalo dos meus amigos, passei pelo largo, a caminho de casa do Sr. Rodrigo. Passei vestido «à mamã», expressão que entre nós designava, não apenas o fato, mas certos rapazitos, medrosos e tímidos, quase sempre vestidos daquele modo e que, por isso, achávamos que não sabiam brincar nem prestavam para nada. A peça de roupa que mais caracterizava um «mamã» era o colarinho gomado aberto sobre o casaco e tapando-o até aos ombros. E eu, tido e respeitado como um rapaz às direitas, lá ia de enorme colarinho de goma, ao lado de meu pai.
Nem olhava para ninguém.
E, ainda hoje, após tantos anos, sinto vergonha. Não já pela gola, mas pelo rosto de estarrecido espanto com que fiquei no retrato.

Manuel da Fonseca, in O fogo e as cinzas (1951)




sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Menina e moça (Bernardim Ribeiro)



Este é o início do livro Menina e moça de Bernardim Ribeiro.

Menina e moça me levaram de casa de minha mãe para muito longe. Que causa fosse então a daquela minha levada, era ainda pequena, não a soube. Agora não lhe ponho outra, senão que parece que já então havia de ser o que depois foi. Vivi ali tanto tempo quanto foi necessário para não poder viver em outra parte. Muito contente fui em aquela terra, mas, coitada de mim, que em breve espaço se mudou tudo aquilo que em longo tempo se buscou e para longo tempo se buscava. Grande desaventura foi a que me fez ser triste ou, per aventura, a que me fez ser leda. Depois que eu vi tantas cousas trocadas por outras, e o prazer feito mágoa maior, a tanta tristeza cheguei que mais me pesava do bem que tive, que do mal que tinha. Escolhi para meu contentamento (se em tristezas e cuidados há i algum) vir-me viver a este monte onde o lugar e a míngua da conversação da gente fosse como já para meu cuidado cumpria, porque grande erro fora, depois de tantos nojos quantos eu com estes meus olhos vi, aventurar-me ainda a esperar do mundo o descanso que ele não deu a ninguém. Estando eu assim só, tão longe de toda a gente e de mim ainda mais longe, donde não vejo senão serras que se não mudam, de um cabo, nunca, e do outro águas do mar que nunca estão quedas, onde cuidava eu já que esquecia à desaventura por que ela e depois eu, a todo poder que ambas pudemos, não deixámos em mim nada em que pudesse achar lugar nova mágoa; antes tudo havia muito tempo, como há, que é povoado de tristezas, e com razão. Mas parece que das desaventuras há mudança para outras desaventuras, que do bem não a havia para outro bem. E foi assim que, por caso estranho, fui levada em parte onde me foram diante meus olhos apresentadas em coisas alheias todas as minhas angústias, e o meu sentido de ouvir não ficou sem sua parte de dor.

Bernardim Ribeiro 


Bernardim Ribeiro (Torrão, 1482? — 1552?) foi um escritor e poeta português renascentista. A sua principal obra é a novela Saudades, mais conhecida porém como Menina e Moça (da primeira frase da novela, que se tornou um tópico da literatura portuguesa: Menina e moça me levaram de casa de minha mãe para muito longe…).

Teria frequentado a corte de Lisboa, colaborou no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, que assim como Bernardim pertenceu à roda dos poetas palacianos juntamente com Sá de Miranda, Gil Vicente e outros.

Foi o introdutor do bucolismo em Portugal.

(Wikipédia)



segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Venenos de Deus Remédios do Diabo (Mia Couto)



Aos 10 anos todos nos dizem que somos espertos, mas que nos faltam ideias próprias. Aos 20 anos dizem que somos muito espertos, mas que não venhamos com ideias. Aos 30 anos pensamos que ninguém mais tem ideias. Aos 40 achamos que as ideias dos outros são todas nossas. Aos 50 pensamos com suficiente sabedoria para já não ter ideias. Aos 60 ainda temos ideias mas esquecemos o que estavamos a pensar. Aos 70 só pensar já nos faz dormir. Aos 80 só pensamos quando dormimos.

Fala de Bartolomeu Sozinho, personagem do livro de Mia Couto Venenos de Deus Remédios do Diabo




sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Ariane (Miguel Torga)




ARIANE

Ariane é um navio.
Tem mastros, velas e bandeira à proa,
E chegou num dia branco, frio,
A este rio Tejo de Lisboa.

Carregado de Sonho, fundeou
Dentro da claridade destas grades...
Cisne de todos, que se foi, voltou
Só para os olhos de quem tem saudades...

Foram duas fragatas ver quem era
Um tal milagre assim: era um navio
Que se balança ali à minha espera
Entre as gaivotas que se dão no rio.

Mas eu é que não pude ainda por meus passos
Sair desta prisão em corpo inteiro,
E levantar âncora, e cair nos braços
De Ariane, o veleiro.

Miguel Torga



Para ajudar na compreensão do poema: No dia 1 de janeiro de 2010 foi publicada esta mensagem no blogue De Rerum Nature, que incluía também o poema de hoje:


Ariane

No dia 1 de Janeiro de 1940, há 70 anos, Miguel Torga estava preso na cadeia do Aljube, esse “tombo de agonias”.

Logo após a apreensão, no final de Novembro de 1939, com exemplar eficácia em todas as livrarias do país, de O quarto dia da criação do mundo, veio a ordem de prisão do médico-escritor, onde constava a acusação de, nessa obra, “defender ideias subversivas”. Até ao dia em que saiu, a 2 de Fevereiro de 1940, Torga escreveu vários contos, que deram corpo a Bichos, e poemas: Exortação, Lembrança, Pietá, Canção, Claridade e Ariane, que estão entre as páginas 121 e 128 do Diário I.


Fotografias de Miguel Torga da ficha da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PIDE)


sábado, 18 de junho de 2016

As férias (José Saramago)

Fotografia de Junior AmoJr


Com esta crónica de José Saramago, que faleceu no dia 18 de junho de 2010, despede-se o blogue dos seus leitores até ao mês de setembro.


As férias

Hoje, venho falar das férias: é o tempo delas, como se diz que é o tempo das cerejas. Outra árvore dá estes frutos, e a mesma árvore os arranca: os dias as trazem até nós, os dias as levam. Neste escoar se vai o tempo, mas enquanto as férias se aproximam, tudo é desejá-las, fazer projectos, embalar ilusões. Chegado o dia, temos diante de nós um espaço vazio à espera, como uma grande sala em que é preciso habitar. Que vamos pôr lá dentro? Há quem passe uns dias na terra, quem se atreva ao estrangeiro, quem conte os escudos para o toldo da praia. Há também quem não saia de casa e fique a ver, todas as horas do dia, a rua onde mora. Seja como for, os dias de férias ganham de repente um valor que os outros não tiveram. São dias totalmente disponíveis, à mercê da imaginação e das posses de cada qual. O tempo desligou-se da mecânica do relógio, é uma dimensão não delimitada, informe, um pedaço de barro diante das mãos que o vão modelar.

As férias são também uma obra de criação. Não espanta, portanto, que no limiar delas um súbito temor nos intimide. Aquele intervalo entre duas representações, aquela clareira, rodeada de floresta negra por todos os lados --- que iremos nós fazer do barro do tempo? Se vamos à terra, dois dias bastam para rever as pessoas conhecidas, os sítios e a família; se ousamos ao estrangeiro, que resultado tiraremos de quatro mil quilómetros em oito dias? E se vamos à praia? E se ficamos em casa? Depois, tudo são complicações: horários, refeições indigestas, noites mal dormidas, histórias velhas de família cansaço de viagens de ida e volta, raiva de estar fechado. Ah, as férias! Quando elas acabam, ficam-nos umas lembranças desmaiadas, como de um sonho antigo. Nada aconteceu como tínhamos imaginado: choveu, veio uma dor de dentes, os museus eram muitos, as paisagens não eram tão belas como as fotografias delas, gastou-se muito dinheiro - ou não houve sequer dinheiro para gastar. E recomeça-se o trabalho em rigoroso estado de cólera, porque pior do que ter tido e não ter já, é ficar aquém do que se sonhou.

No fundo, esse sonho, vezes e vezes renovado e outras tantas frustrado, é apenas o desejo inconsciente de repetir as únicas férias maravilhosas que já tivemos: as da infância - esses infinitos meses para os quais não havia projectos, porque então não os fazíamos e porque, mesmo antes de vividos, já eram realização. O mundo estava todo por descobrir - e o mundo cabia no círculo que os olhos traçavam. Duas árvores e um charco: a Europa. Um caminho entre rochedos: a América. Ou a Ásia. Ou a África. Nadar ou navegar no rio era o mesmo que atravessar o oceano. E descobrir um ninho abandonado valia bem a caverna de Ali Babá. Por isso, hoje, as férias não podem ser, repouso. Queremos, à viva força, descobrir o mundo, como se fôssemos nós os primeiros: outra coisa não significa a nossa satisfação quando obrigamos um. amigo a confessar que não viu, no Louvre, aquela estátua grega que, no nosso entender, vale a viagem...

Tudo isto são ilusões. O mundo está visto e decorado. Ninguém descobrirá a Europa, e a estátua grega, afinal, é uma pobre cópia romana. Mas que importa? Aqui solenemente declaro que, este ano, as minhas férias serão, em valor de revelação e descoberta, iguais àquelas em que, com os olhos novos da infância, me aconteceu encontrar uma fonte que ninguém conhecia. E se este ano não for, será para o ano. Porque a fonte lá está...

José Saramago

in Deste Mundo e do Outro (1971)




sexta-feira, 17 de junho de 2016

Pelo sonho é que vamos (Sebastião da Gama)

 



PELO SONHO É QUE VAMOS

Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.

Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.

Chegamos? Não chegamos?
- Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião da Gama




quarta-feira, 15 de junho de 2016

Pés descalços...



Havia dois ou três dias que Matilde não ia à escola. Estava doente. Dolores foi visitá-la e disse: Vê se amanhã podes ir, a professora disse que iam distribuir sapatos. Matilde, que era muito pobre e andava descalça, fez um esforço e mesmo com febre foi à escola. Ao vê-la entrar a professora disse: Ai hoje vieste? Já te passou a doença? Querias, talvez, uns sapatos e por isso apareces. Pois fica sabendo que não os levas. Matilde voltou para casa muito triste, chorando. Ao vê-la o pai perguntou-lhe o que se passava. Ela contou. Furioso o pai foi à escola e depois de discutir com a professora disse: AGORA FIQUE SABENDO QUE A MINHA FILHA NUNCA MAIS CÁ VOLTA!!!

E é por isso, pela "burrice" destes dois "adultos" que Matilde, hoje com 70 anos, nunca aprendeu a ler nem a escrever. Isso, claro, nunca a impediu de fazer a sua vida e de ser uma das pessoas mais espertas e "desenrascadas" que eu conheço. Mas é pena, que pela insensibilidade duma professora e autoritarismo de um pai, aquela menina deixasse de ter acesso ao ensino da leitura e da escrita. Naquele tempo era assim.... E hoje? Claro que hoje (que tanto se apregoam os direitos das crianças) nem tudo é um mar de rosas, haverá (há) outros "assins" que também marcam pessoas, destruindo sonhos! (Esta é uma história verídica. Os nomes são fictícios)


Lido no blogue Sardinheiras (29-6-2012)