POESÍA a rodos Textos em português (literários e não literarios) Vídeos com histórias

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades (Luís de Camões )




Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Luís de Camões 




Aqui podemos ouvir este belo soneto camoniano com dois sotaques diferentes.


segunda-feira, 24 de abril de 2017

Antes e depois do 25 de Abril de 1974 (Beatriz Cunha)



"À conversa com a minha mãe, e apesar de ela apenas ter 7 anos de idade aquando do 25 de Abril, notei algumas alterações na sua vida, nomeadamente no que diz respeito ao microssistema.

O que mais notei foram alterações no que respeita à escola; antes do 25 de Abril, fiz a primeira classe como aluna da minha mãe, numa escola em que rapazes e raparigas estavam separados, quer nas aulas quer no recreio. o mais engraçado, é que apesar de os alunos serem separados, eu estava numa turma de rapazes, pois a minha mãe dava aulas aos rapazes! Depois do 25 de Abril fui obrigada a mudar para a escola da minha área de residência, deixei de ser aluna da minha mãe, e já estava numa turma mista, e tinha muito medo dos rapazes!

Era muito nova e não tenho a noção das alterações na sociedade, mas lembro-me de começarem a existir muitas manifestações, passava na rua e eram só caravanas com os carros a apitar e com bandeiras, os muros cheios de cartazes políticos, dos mais diversos partidos! Também me lembro de, na televisão, à hora do almoço, começarem a dar os desenhos animados dos Beatles! Começou a haver muito mais agitação, e as músicas de intervenção passaram a ser uma constante nas rádios e em todos os locais públicos. Antes, isso era impensável!

Também me lembro da grande vaga de retornados das ex-colónias, a maior parte deles vieram sem nada, e comecei a conviver com eles diariamente, na escola, eram vizinhos, e alguns deles ainda hoje são grandes amigos. Tenho uma vaga ideia de em Lisboa terem feito A Pirâmide, com alimentos para ajudarem os retornados, e davam as imagens na televisão. Foi pouco tempo depois do Natal desse ano..."

Beatriz Cunha

Lido em Psic.12ºB.


terça-feira, 18 de abril de 2017

Auto-retrato (Manuel Bandeira)

Manuel Bandeira, retratado por Candido Portinari (1931)



AUTO-RETRATO

Provinciano que nunca soube
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crónicas
Ficou cronista de província;
Arquitecto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão
Um tísico profissional.

Manuel Bandeira




sexta-feira, 7 de abril de 2017

Auto-retrato (Alexandre O'Neill)

Alexandre O'Neill


Depois da leitura do auto-retrato de Bocage, toca a ler o de Alexandre O'Neill, inspirado nele e com o toque de humor tão característico dele.


AUTO-RETRATO

O'Neill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada...)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele O'Neill!)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
   Mas sofre de ternura, bebe de mais e ri-se
   do que neste soneto sobre si mesmo disse...

Alexandre O'Neill, in 'Poemas com Endereço'






Auto-retrato (Bocage)




AUTO-RETRATO

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos, por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades,

Eis Bocage em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.

Bocage


Manuel Maria Barbosa du Bocage
(1765 - 1805)

Imagens achadas aqui




sábado, 1 de abril de 2017

Remodelações governamentais (Mário-Henrique Leiria)



REMODELAÇÕES GOVERNAMENTAIS

-Podem sentar-se, meus senhores - determinou o Presidente aos Ministros que, atentos, o esperavam ao longo da mesa magnífica. E sentou-se também, no lugar que lhe competia. - Parece-me ser conveniente uma remodelação integral do ministério.

Entre o silêncio respeitoso, o Presidente levou a mão discreta ao bolso interior do casaco. Tirou o apito e apitou. Três vezes.

A porta da antiquíssima sala dos Passos Longos abriu-se. De par em par. A guarda presidencial entrou e abateu os Ministros com rajada de metralhadora competente. Todos.

-Muito bem - confirmou o Presidente, levantando-se. O cabo Ludovino encostou a metralhadora à parede, com todo o cuidado. Esfregou o nariz, olhou em volta, sorriu e atirou o Presidente pela janela daquele quarto andar.

Mário-Henrique Leiria


Novos Contos do Gin (1974)

sexta-feira, 31 de março de 2017